tudo de novo
Estou limpo, de roupa limpa, alimentado, com saúde e no aconchego de minha morada. É noite que antecede o próximo ano, 2012. Gostaria de enviar minhas mais sinceras e suficientes emanações de bemquerência e esperança para todas as milhões de pessoas que, neste fatal momento, encontram-se numa situação inversa a minha [próximas ou distantes geograficamente] e que padecem sob o insuportável peso do desespero. Sei que não é muito, mas quero crer que possa ser uma contribuição válida. Sou dos que tem o privilégio de ter conseguido perceber a indignação como qualidade e que optou por essa vertente de sentimento e atitude. Sei que o que fiz e faço é muito pouco, mas quero crer que posso sempre me comprometer em melhorar. Trabalho incessantemente em obter as condições objetivas e práticas para a realização do que me impus como missão: contar histórias através do cinema. E tenho a convicção de que as histórias que devo contar são aquelas que tenham o potencial de despertar e/ou reforçar nos demais a faceta da indignação e da solidariedade consequente. Que sirvam para entreter também, mas sempre na perspectiva do valor artístico e humanitário. Eu não creio na humanidade como uma espécie boa por natureza [não mais], mas creio profundamente em pessoas que valem por grupos e gerações. Desejo com sinceridade que no novo ciclo que se inicia cada um consiga canalizar as energias que nos circundem [as deste planeta e as que viajam pelo espaço e se chocam conosco] em benefício da vida.
Réquiem para (Face)Buca Dantas
estradeiras[os]
quem me conhece sabe que sou dos “juizo agoniado” e quando gosto de algo fico [de fato] fissurado e priorizo com força. com o facebook foi assim e tenho filmes pra fazer que requerem minha atenção plena. é que eu simplesmente não consigo deixar uma pergunta sem resposta, e ficava ansioso pensando que as pessoas estariam fazendo contato comigo pelo FB e eu tinha que a todo instante verificar. até que ontem a noite dei um basta nisso, pois que tenho e-mail público. aos que compartilhavam o perfil comigo dedico este texto [que dá titulo a esse post] que o bróder Sando Fortunato dedicou a minha morte virtual:
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Acabo de saber do passamento feicebuquiano de meu amigo BUCA DANTAS. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino nas redes sociais, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.
Morreu Buca Dantas e foi épico! No Orkut, morreu e morreu e morreu um sem número de vezes, provando que existe vida e mais morte após a morte virtual. De alma penada vagando por bytes escuros, ressurgia como uma fênix eletrônica e pedia: “Me adiciona aí de novo.” E de novo e de novo e de novo…
Chegou a derradeira hora de Buca nos domínios do Facebook. Extinguiram-se seus dias em pleno Natal. Quando a luz retorna à terra, meu amigo se libertou das amarras desse mundo, dos gradis que cercam a liberdade de um espírito que anseia por liberdade. Existisse um CVVV, um Centro de Valorização da Vida Virtual, e casos assim poderiam ser evitados. “CVVV, boa noite! Calma, meu amigo, a vida virtual foi o maior dom que Zuckerberg nos deu…”
Vai, Buca! Onde quer que você se encontre – no Twitter (ainda?!) ou no bar mais próximo – vai em paz. Só não me peça para adicioná-lo outra vez quando voltar, certo?
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Pilares da criação
Esta é uma das fotos que mais me impressionou na vida.
É imensa, sábia, ancestral. Quando a vi passei dias conectado com o espaço profundo, imaginando diálogos com algum ser inteligente que poderia estar em algum lugar que não o planeta Terra. É que desde adolescente acredito que exista alguém, que habite outro planeta, fazendo a mesma coisa: tentando se comunicar simplesmente, sem o auxílio da tecnologia.
Nós humanos já tivemos [e certamente ainda desenvolveremos] habilidades sensoriais que encontram-se “adormecidas” por inoperância. Ainda estão aqui, aí, à disposição de quem se aventurar a explorar. É como ver, ouvir. Sentidos que foram cedendo espaço para os que atualmente reconhecemos e usamos. Um indício da lógica desse raciocínio está no fato de pessoas cegas [por exemplo] desenvolverem outras habilidades de reconhecimento e interação.
Os “pilares da criação” fizeram eu me sentir mais humano, mais universal. É mais uma prova da exuberância da vida, da possibilidade de o Universo criar incessantemente, de demonstrar sua pujança e simplicidade. Tudo que existe é extremamente simples, e simples são as mais lindas e sólidas idéias e realizações. Premissas básicas, materiais básicos e finalidades básicas. O primário regendo a sinfonia da complexidade.
Quando vejo essa fotografia eu sei que é uma imagem de algo que provavelmente não exista mais da forma como se apresenta. Milhares de anos nos separam. Nesse momento a nossa humanidade estava codificando os alfabetos, elaborando os primeiros cálculos e iniciando a construção das grandes pirâmides. É uma viagem no tempo que podemos fazer. Basta nos transportar para aquele espaço [imaginariamente] e fazermos o caminho de volta. Veremos o nascimento de nossa civilização.
Somos uma espécie capaz dos extremos. Desde o amor até a indiferença [pois que, para mim, são os extremos/limite]. Produzimos alimento para o dobro de habitantes do planeta, enquanto permitimos que dois terços agonizem de fome. Somos capazes de dar a vida por outra pessoa incondicionalmente ao mesmo tempo que as escravizamos das formas mais hediondas e imperdoáveis. Somos capazes da música [a música, que coisa mais linda!!!] e do escárnio, do abraço e da solidão, do riso e da humilhação.
Sempre que recordo os “pilares da criação”, como agora, fico apaixonado pela espécie humana, pelo que existe no nosso mundo fruto do esforço quase impossível de nações inteiras. Sei que nesse momento milhões de seres humanos estão padecendo sob o insustentável peso da miséria absoluta. E é pra essas pessoas que eu diariamente dedico minha criatividade, minha determinação em sonhar e minha esperança sem limite.

