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o barco

08/05/2015

Estava numa planície em algum país que não consegui identificar. Sei que era dia ainda porque havia claridade suficiente para ver com nitidez a farta grama verde tomando toda a extensão da pradaria, o capim alto [também verde] balançando ao vento que soprava da minha direita [que dava para um conjunto de imensas e creio que instransponíveis montanhas com uma cabeleira exuberantemente branca e certamente congelante], mesmo que eu não conseguisse ver o sol acima das espessas nuvens que tomava todo o céu. Era dia, ainda.

coldlakeO que me pareceu ser já o entardecer foi mansamente se instalando em meu pensamento como uma nítida e insistente impressão de que eu teria que agir com maior brevidade para contornar aquela cordilheira pela via mais improvável: pelo lago. Pois que havia um exuberante e imenso e espelhado mar de água doce e melíflua a minha frente e que eu poderia jurar que conseguia compreender a sua sensual e irresistível voz ancestral e que me sussurrava poemas de amor e aventura.

A certeza que impregnava cada pelo eriçado de meu corpo castigado pelo frio do ártico [acolá só poderia ser o ártico, sem a menor sombra de dúvida] era que ali, naquele exato e inconfundível e singular lugar eu estava porque assim e de nenhuma outra maneira eu haveria de ter decidido antes e finalmente estava cumprindo com o meu Destino.

Tão logo consegui me erguer e amarrar as minhas coisas e guardá-las cuidadosamente em minha mochila de couro curtido por algum anônimo e esquecido artesão sertanejo de mãos calejadas pelo tempo e o uso provavelmente em uma rústica e bem varrida oficina a dezenas de milhares de quilômetros daquele paraíso de cristais de esmeralda vegetal surgiu como que por um passe de magia e prestidigitação e materialização da minha vontade inconsciente uma mais que improvável jangada de gelo.

Bem na minha frente, flutuando na borda da água e eu até poderia jurar em nome do que me fosse mais sagrado [ou nem tanto, como os cachos dos cabelos de uma imagem de uma santa feita com cabelos de verdade de alguma filha de algum mercador de escravos e que vivera há mais de trezentos anos e que tive a infelicidade de passar a mão sob os impropérios da moça-velha que tomava conta daquele museu esquecido na poeira e lodo décadas antes, que Deus tome conta daquela triste figura] que parecia me convidar que eu a subisse.

Não era uma situação comum e corriqueira, como fazer a barba maquinalmente diante de um velho e enferrujado espelho pela manhã ou cortar um tecido de fina estampa com uma tesoura afiadíssima sobre uma mesa de madeira velha e de pernas firmes torneadas a mão. Não, aquilo não era engenho e arte e ato de vontade ordinária, quis dizer, mas a consubstanciação de uma vontade que eu não tivera a menor consciência e que nem sequer havia pensado nos seus elementos materiais e seus usos.

A balsa de gelo mansamente ondulava à minha frente e eu a ocupei. Tão logo cruzei minhas pernas sobre aquele piso branco, confortavelmente áspero, fosco e frio o pequeno barco pôs-se a lenta marcha lago adentro, porém mantendo uma distância próxima à costa. O sol, cada vez mais vermelho, inundou o mundo de melancolia. Suspirei e enchi os pulmões daquele oxigênio abundante e limpo, como se fora uma refeição apetitosa e quente e aconchegante de bodega de beira de estrada depois de um dia inteiro de caminhada sob o sol fumegante. As estrelas foram acendidas no firmamento e soube que era noite e o sono se instalou definitivamente.

sobre motivação

04/05/2015

A primeira pessoa que eu vi como a figura mítica do herói foi o boxeador Muhammad Ali. Desde que me lembro fui apaixonado por ele, pela beleza lutando e de como era totalmente diferente dos demais no comportamento. Fui atraído por sua força gravitacional de forma instintiva e não sabia que já então eu seria atraído por aquele tipo de pessoa que crê de uma maneira simples e sólida em seus propósitos de humanidade. Somente muitos anos mais tarde tive consciência de que o próprio nome que Ali tomou para si foi um elemento de luta  contra o racismo e sua afirmação de ícone mundial contra as mazelas da discriminação. Ele alega que seu nome de batismo era uma afirmação da escravidão e o recusou, pagando um preço caríssimo por isso e até hoje pouquíssimas pessoas o compreendem. Ali continua sendo o meu mais querido e significativo herói, o “Rei do Mundo” como ele afirmou após uma luta e que James Cameron vai por na boca de seu protagonista do filme Titanic significando o domínio do momento feliz e de profunda liberdade. Ali não foi aquele atleta invicto, perfeito e sem arestas porque isso simplesmente não existe. Entretanto a sua falibilidade pontual não o desqualifica como o maior boxeador de todos os tempos e nem diminui a intensidade de sua aura encantadora. Ali é um espírito que escapa da limitação de seu corpo, consciente da importância de sua postura como lutador dentro do ringue e pessoa indignada contra a discriminação racial ao negro no seu país e no mundo. Realizou lutas memoráveis como as contra Joe Frazier [indo à lona na primeira, perdendo por pontos e vencendo sem retoques a segunda também por pontos] e a The Rumble in the Jungle contra George Foreman no Zaire. ali2Não foi a perfeição de Ali que me apaixonou, mas a sua falibilidade que me fez crer que aquele semideus irmão negro se guiava por motivação apaixonada, legítima e em quem eu queria me inspirar. Ali é um farol a iluminar o meu mar bravio sempre que me encontro numa situação [como atualmente] de profunda [mas espero que passageira] desmotivação para o cinema que tanto amo. E agora mesmo é Ali que me motiva com o bailar das pernas, as caretas e a provocação magicamente infantil às adversidades.

sobre eu, você e todo mundo

29/04/2015

Muitos são os temas que atualmente graçaram no Brasil como estopim de opiniões contrárias. Essas opiniões foram se inflamando e aflorando a real face de cada um, jogando por terra uma ou outra maquiagem psicosocial ou máscara comportamental.
O mote principal é o ódio. Ódio a tudo que o outro represente ou seja de fato, mas principalmente o ódio de classes. Quem tem a hegemonia do poder, da sua ideologia e controle estrutural ruge com impiedosa ira contra os de baixo e os que querem ascender de maneira justa.
O poder exercerá fatalmente seu poder e para isso lança mão de um exército de bajuladores, gente da classe “dos de baixo” e que vendem sua força intelectual de trabalho como obedientes lacaios sempre prontos a servirem de bucha de canhão aos “de cima” na guerra de lama que impõem aos demais.
A reboque desse discurso de ódio segue a população geral, arrebanhada para a degola conceitual via satélite e internet. O cidadão comum, aquele que tem a opinião deformada por uma série de veículos de comunicação [TV, rádio, jornal impresso, revista, blogs, etc] nas mãos de quem secularmente manda e desmanda nos destinos econômicos da nação tem pouca chance de se livrar desse carrocel da mentira.
Cabe a nós, os que se pretendem uma vida sem ódio, trazermos para nosso convívio somente as pessoas que queiram amar tudo e todos com atitudes de compaixão.

sobre relevâncias

24/04/2015

teto1No mar de inutilidade e futilidade apregoada pela mídia de massa brasileira emerge com a retumbante força do que é de fato relevante a campanha da ong TETO, com o objetivo de dar visibilidade para a realidade de extrema pobreza em que vivem milhões de brasileiros.

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Cada um de nós já se deparou com o absurdo de chamadas noticiosas várias sobre fatos que esbanjam nulidade e desnecessidade. A campanha da TETO resignifica essas chamadas colocando-as nas mãos de famílias que, essas sim, enfrentam dramas reais, urgentes e invisíveis.

Saiba mais sobre essa campanha aqui.

Selvagem

23/04/2015

Hoje tive o que penso ser um despertar sobre o termo selvagem. O que é ser selvagem? Bom, selvagem é relativo à selva. O dicionário Priberam diz que é adjetivo e substantivo de dois gêneros e que é “próprio das selvas; que nelas se cria, nelas cresce ou vive.” e ainda que “diz-se do homem ou do povo que vive sem mais noções sociais do que as que o instinto lhe sugere”.

nanaturezaselvagemCreio que seja isso também, mas que primordialmente selvagem é ser primário, puro, como a Terra Sem Males de que falam as nações originárias sulamericanas ou o Éden hebraico. A mim me parece que ser selvagem é ser alguém conectado com a pureza da natureza, comprometida com a sua preservação, com o respeito às individualidades alheias e na perspectiva de relações interhumanas e interplanetária.

Recordo agora do filme Na Natureza Selvagem, que é uma adaptação do livro de não-ficção de mesmo nome de 1996 de Jon Krakauer baseado nas viagens de Christopher McCandless através da América do Norte e sua vida passada no deserto do Alaska no início da década de 1990. Ao terminar a faculdade, Christopher, aos 22 anos, doa todo o seu dinheiro a uma instituição de caridade, muda de identidade e parte em busca de uma experiência genuína que transcendesse o materialismo do cotidiano. Abandona, assim, a próspera casa paterna sem que ninguém saiba e aventura-se na estrada. Perambula por uma boa parte da América [chegando mesmo ao México] de carona, a pé, ou até de canoa, arranjando empregos temporários sempre que o dinheiro faltasse, mas nunca se fixando muito tempo no mesmo. Chris acaba por abandonar o seu carro e queimar todo o dinheiro que levava consigo para se sentir mais livre. Desconfiado das relações humanas e influenciado pelas suas leituras, que incluíam Tolstoi e Thoreau.

Gosto muito da trágica e bela história do Christopher porque também fui irremediavelmente influenciado pela literatura de Tolstoi, Thoreau e por um de seus mais legítimos herdeiros que é o Jack Kerouac [a quem tomo emprestado o título de um de seus livros para batizar esse meu blog]. São autores selvagens, que falam de coisas selvagens para pessoas que buscam o que há de mais puro e verdadeiramente selvagem dentro de si.

Born to be wild, como diria a banda Steppenwolf embalando a Easy Rider de Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson e Christopher McCandless em seu ônibus para as estrelas no Alaska.

trilha do topo da vida Inca

20/04/2015

A tempestade se mostra no horizonte

Em nuvens cinza e furor rotundo

Quebrando a ingenuidade que há no mundo

E cobrindo de sombra as montanhas

As pegadas já se foram pelo tempo

E não há mais vestígio na areia

A brisa que se foi não mais semeia

Deixando apenas silêncio e solidão

Houve banquetes de amores crus

Rumores de estrelas curiosas

Manhãs de fugas misteriosas

que o som da chuva encantou.

picchu

criança lindíssima!

19/04/2015

uma criança da tribo Arbore [Etiópia].

fonte: People of Earth

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