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Uma lâmpada acesa para a escuridão.

22/10/2018

O dia amanheceu como outro qualquer. Não havia vento, não havia claridade suficiente. Somente um dia cinza que forçava a sua entrada nada majestosa. Poderia até dizer que estava escuro, muito embora o sol já havia se livrado do horizonte. Poderia estar com os olhos fechados, mas não. Conseguia ver a janela aberta. Então que os olhos também estavam abertos. Mesmo assim não saberia dizer, pois que um misto de escuridão e desalento bafejava em sua cara dura.

A barba por fazer. Por fazer há dias. O corpo inchado e disforma sobre uma cama suja e gordurenta. Mexia a cabeça para um lado e outro. Encarou a parede como se fora uma amiga ou amante. Nada. Nem um papel, nem um retrato, nem um sequer rabisco de fosse lá qual fosse o recado desesperado que o tempo poderia lhe fornecer de referência. Teria dormido umas quatro ou cinco horas, não saberia dizer. A televisão seguia o seu chiado característico das noites mal dormidas.

Levantara? Era bem provável que sim, pois que já estava enxugando o rosto que continuava duro e sem expressão nenhuma. Como haveria chance para expressão num rosto cuja principal característica era o de mexer alguns músculos indispensáveis para a ingestão de comidas e bebidas? Como haveria expressão diversa da indiferença numa escultora gótica de carne sobre ossos cuja finalidade ultimamente teria sido somente os bafejos de bons dias e boas noites para transeuntes desconhecidos, almas penadas pelas ruas lúgubres e tenebrosas e conhecidos desconhecidos?

Pensava nessas coisas enquanto descia goela abaixo um bolo alimentar de alguma coisa com café. Tudo mastigado conforme as tantas vezes recomendadas por nutricionistas de orelha de livro, que a depender do dia seriam entre duas e quinze. Agora já mastigara bem mais que isso e mesmo assim a comida não descia. Decerto que estava acordado pois que estava tomando água na torneira, olhando impassível para o quintal com flores mortas. Não havia cores, não havia pássaros, não havia luz. O céu continuava sem nenhuma nuvem, mas cinza. Lá fora só o vazio dos carros que se atropelavam pelo tempo. A única coisa a se fazer era recarregar o brainslot empático.

Puxou o fio disparador da lâmpada de teto, ouviu sem ouvir o clic que acionaria a energia elétrica do dispositivo. A luz amaraleda dançou pelas paredes corroídas pelo mofo e cartazes e panfletos irruptores de revoluções apaixonadas e irrealizáveis. Jogou-se novamente na cama, puxou o leitor magnético e deixou-se transportar para os seus mundos fantásticos. O dia podia esperar. A célula do nível psicotélico piscava no inconfundível amarelo-avermelhado de que, por algumas horas, sua única comunicação com o mundo seria aquela, infelizmente analógica.

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